Ex-morador de rua supera dificuldades e se torna diretor de escola em Juazeiro do Norte.
Francisco Renato Silva Ferreira, de 35 anos, chegou a viver
nas ruas de Icó durante a infância, mas nunca abandonou os estudos
Das ruas à sala de aula. Se isso já era uma grande vitória na
vida do professor Francisco Renato Silva Ferreira, chegar ao cargo de diretor
de uma escola de Juazeiro do Norte, em janeiro deste ano, tem sido o grande
prêmio por tudo que lutou. Aos 35 anos, formado em Educação Física e Pedagogia,
Renato driblou diversos obstáculos para conseguir seus diplomas e se tornar uma
grande inspiração.
Antes de desembarcar na terra do Padre Cícero, o professor
viveu nas ruas de Icó, durante a infância, após a morte dos seus pais em um
acidente de trânsito. Mesmo longe de um teto, já conciliava os estudos com a
rotina da cidade. “Hoje me orgulho da minha história e tento compartilhar um
pouco com as pessoas”, conta.
DE CANOA PARA A ESCOLA DE TAIPA
Natural de Orós, foi para Icó morar com avó e sua tia após a
perda dos seus genitores. A luta por sua educação começou no Sítio Mulungu,
onde diariamente era obrigado a atravessar o açude Lima Campos de canoa para
estudar numa sala de aula improvisada, instalada em uma casa de taipa e coberta
por uma lona. Lá, ficou até a sexta série. “Nunca me senti bem. Quando perdi a
presença de meus pais, a rua me acolheu”, lembra.
Aos nove anos e vivendo nas ruas, conheceu um pastor que o
incentivou a estudar. “Ele perguntou qual era meu sonho e ali já dizia:
‘estudar e ser professor’”. Com o apoio para material didático conseguiu
concluir o ensino básico. Naquele momento, já almejava se formar em Educação
Física. “Eu tenho hiperatividade e nos testes vocacionais sempre indicavam profissões
de movimento, ligado a parte de psicomotricidade. Sou bem elétrico”,
brinca.
DIFICULDADES EM JUAZEIRO DO NORTE
Em 2005, Renato chegou a Juazeiro do Norte, onde conseguiu um
emprego no popular mercado do Pirajá como vendedor. Na época, ganhava R$ 35 por
semana. Depois, passou a trabalhar na mesma função, mas em uma loja de roupas.
Ali, já estava tentando vestibular para Educação Física na
Universidade Regional do Cariri (Urca), mas sem sucesso. O ingresso foi
conquistado em uma faculdade privada, mas não conseguia bancar a mensalidade de
aproximadamente R$ 370.
A vida mudou ao conhecer a gerente de uma loja, que soube de
sua história e ofereceu um teste para trabalhar em sua empresa.
Com a aprovação na avaliação, começou um novo emprego no dia
seguinte após o primeiro contato. Com o salário, conseguia garantir sua
graduação, mesmo que a duras penas. O dinheiro era dividido entre a mensalidade
e o aluguel do seu quitinete. “O que sobrava, não dava para passagem, comida”,
descreve.
Suas colegas de trabalho, na hora do almoço, dividiam sua
refeição com ele. Além disso, o caminho até o trabalho e à faculdade era feito
a pé, percurso de cerca de 15 quilômetros diários, para economizar.
MUDANÇA
Tudo isso durou até o sexto semestre, quando conseguiu um
estágio no Programa Segundo Tempo, iniciativa do Governo Federal que oferece
práticas esportivas para jovens com idades entre 6 e 17 anos, prioritariamente
de áreas de vulnerabilidade social e matriculadas na rede pública de ensino.
Renato conseguiu deixar a loja e se dedicar ao curso que, dois anos depois,
concluiria.
Com o diploma na mão, ele conseguiu a vaga de coordenador de
núcleo no programa Segundo Tempo. Em seguida, iniciou o projeto das academias
populares, onde foi professor. Na Secretaria de Esporte e Juventude permaneceu
até 2016, onde passou a trabalhar na Secretaria de Educação do Município.
Quando migrei para a Educação, fiz foi me apaixonar. Me
deparar com realidades, histórias semelhantes ao que passei. Foi aí que vi que
poderia contribuir, ajudar motivando”
RENATO FERREIRA
Professor
Foi o contato com a Educação de perto, atuando na gestão,
seja como coordenador escolar ou gerente educacional, que o motivou a cursar
Pedagogia. Hoje, já está cursando o mestrado em Ensino em Saúde, trabalhando a
educação inclusiva em Juazeiro do Norte.
Sua pesquisa aborda a inclusão de adolescentes com síndrome
de Down nas aulas práticas de Educação Física. Paralelo a isso, conseguiu ter
um artigo científico publicado em uma revista internacional. “Nele, falamos
sobre a formação de profissionais em educação”, detalha o
professor.
DESAFIO DE SER DIRETOR
Em janeiro deste ano, Renato assumiu o cargo de diretor da
Escola de Ensino Fundamental em Tempo Integral Vereador Francisco Barbosa da
Silva, que fica no bairro Horto, e atende comunidades da zona rural daquela
região. Desde o começo, procurou conhecer a realidade dali e ajudar a
transformá-la.
“Os desafios são gigantescos. A pandemia, por si só, já traz
várias questões para enfrentar, como a evasão escolar, as perdas de
aprendizado. Por ser uma unidade de zona rural, muita gente tem acesso à
internet precário e muitos nem têm”, detalha.
Sem aulas presenciais, o novo diretor já projeta um futuro
retorno, que vem sendo discutido por um comitê montado pela Secretaria de
Educação de Juazeiro do Norte. Nele, será elaborado um plano, que será adequado
à cada unidade de ensino.
A gente está aguardando, mas já pontuamos algumas coisas,
como a adequação da nossa escola, que tem salas amplas, prédio novo, que
possibilita um retorno com mais segurança”
RENATO FERREIRA
Professor
Desde que assumiu a direção, o professor também tem buscado
recuperar a credibilidade da Escola Francisco Barbosa da Silva, que por muitos
anos ficou estigmatizada pela violência na comunidade. Até agora, o trabalho
tem caminhado bem já que a unidade possuía 314 alunos quando assumiu e, hoje, já
soma cerca de 360 estudantes.
“Um número significativo. Esse resgate passa pela gestão
participativa, democrática, criação de redes sociais e e-mails institucionais,
restituição de conselho escolar. Tudo isso para reaproximar a comunidade”,
completa Renato.
(Caririensi)
(Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)
.png)



Deixe seu comentário
Postar um comentário