Diabetes avança em silêncio e já atinge 20 milhões de brasileiros
O
diabetes deixou de ser uma doença associada apenas à maturidade e passou a
ocupar espaço crescente na vida de milhões de brasileiros cada vez mais jovens.
Em menos de 20 anos, o número de adultos diagnosticados mais que dobrou no
país, revelando uma crise de saúde pública que avança de forma discreta,
porém contínua.
Levantamento
recente do Vigitel, sistema de monitoramento do Ministério da Saúde,
mostra que quase 13% da população adulta vivia com diabetes em 2024, o
que representa cerca de 20 milhões de pessoas. Em 2006, no início da
série histórica, esse percentual era pouco superior a 5%. O salto registrado ao
longo do período ultrapassa 130%, evidenciando uma mudança profunda no
perfil de saúde da população.
O
cenário brasileiro acompanha uma tendência mundial. Estimativas da Organização
Mundial da Saúde indicam que aproximadamente 14% dos adultos no planeta
convivem com a doença. Um estudo internacional apoiado pela entidade e
publicado na revista científica The Lancet aponta que, entre 1990 e
2022, o total de adultos com diabetes quadruplicou globalmente,
impulsionado sobretudo pelo crescimento do diabetes tipo 2.
No
Brasil, essa forma da doença responde por cerca de 90% dos diagnósticos.
Ela está diretamente ligada a fatores como excesso de peso, alimentação
inadequada e falta de atividade física. O problema surge quando o organismo
passa a produzir pouca insulina ou não consegue utilizá-la de maneira
eficiente, elevando os níveis de glicose no sangue. Já o diabetes tipo 1,
menos frequente, tem origem autoimune e exige o uso permanente de insulina.
Os
dados também revelam diferenças importantes entre os grupos populacionais. O
aumento dos casos foi mais intenso entre os homens do que entre as mulheres
nos últimos 18 anos. Ainda mais preocupante é o avanço entre adultos jovens. A
maior alta proporcional ocorreu na faixa de 25 a 34 anos, seguida pelos
grupos de 35 a 44 e de 45 a 54 anos. Para especialistas, o diagnóstico
cada vez mais precoce reflete mudanças negativas no estilo de vida, como dietas
de pior qualidade, rotina mais sedentária e crescimento da obesidade.
Os
fatores de risco associados ao diabetes também cresceram de forma expressiva no
país. Mais de 60% dos adultos apresentam excesso de peso, um
avanço próximo de 50% desde 2006. A obesidade mais que dobrou no período e já
atinge cerca de um quarto da população. A Sociedade Brasileira de
Endocrinologia e Metabologia aponta o ganho de peso como um dos principais
motores não apenas do diabetes, mas de diversas doenças crônicas.
Embora
mais pessoas relatem praticar exercícios no tempo livre, atividades físicas
incorporadas ao cotidiano, como caminhar ou pedalar para trabalhar ou estudar,
vêm diminuindo. Paralelamente, o consumo regular de frutas e hortaliças
segue baixo, alcançando pouco mais de 30% da população adulta. Outros
hábitos também acendem o alerta: a ingestão de bebidas alcoólicas cresceu de
forma significativa desde 2006, e o tabagismo, após anos de queda, voltou a
apresentar aumento a partir de 2019.
Pela
primeira vez, o Vigitel incluiu informações sobre o sono da população.
Os resultados mostram que uma em cada cinco pessoas dorme menos de seis
horas por noite, enquanto quase um terço relata sintomas de insônia. Esses
padrões estão associados a maior risco metabólico e podem contribuir para o
avanço do diabetes.
A
análise da evolução dos dados indica uma aceleração recente do problema. Entre
2006 e 2024, o crescimento médio anual dos casos foi moderado, mas, nos últimos
cinco anos, o ritmo praticamente triplicou, sinalizando um agravamento do
cenário.
Diante
desse quadro, o Ministério da Saúde lançou a estratégia Viva Mais
Brasil, voltada à prevenção de doenças crônicas e à promoção de hábitos mais
saudáveis. O plano prevê investimento de R$ 340 milhões em ações para
estimular a prática de atividade física e melhorar a qualidade de vida,
incluindo a retomada do programa Academia da Saúde, com novos repasses a
partir de 2026.
Especialistas
alertam, no entanto, que os esforços precisarão ir além. Sem políticas públicas
mais amplas para facilitar o acesso a alimentos saudáveis, incentivar o
movimento no dia a dia e fortalecer a atenção básica, a tendência é que o
diabetes continue avançando de forma silenciosa, impondo custos humanos e
sociais cada vez maiores ao país.
(Portal folha do
vale)
(Foto: Reprodução)
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