Mulheres ganham 10% menos que homens no Ceará e desigualdade racial amplia diferença

 



As mulheres recebem, em média, 10% a menos que os homens no mercado de trabalho do Ceará. Enquanto a remuneração média feminina é de R$ 2.914, a masculina chega a R$ 3.233, segundo dados do Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, elaborado com base em informações de empresas com pelo menos 100 empregados.

Os números também revelam que gênero e raça ampliam as desigualdades. No topo da pirâmide salarial estão os homens não negros, com rendimento médio de R$ 4.162, enquanto mulheres não negras recebem R$ 3.573, diferença de R$ 589, cerca de 14%.

Entre trabalhadores negros, o rendimento médio também é menor. Homens negros recebem R$ 2.976, cerca de R$ 597 a menos que mulheres não negras. Eles representam grande parcela da força de trabalho, ao lado das mulheres negras, cuja remuneração média é de R$ 2.703.

Impactos econômicos e sociais

A diferença salarial ao longo da vida reduz a autonomia financeira das mulheres e afeta sua segurança econômica no longo prazo. A avaliação é de Adriana Bezerra, líder do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará Mulher (IBEF Mulher).

Segundo ela, o problema vai além da questão de equidade. “A desigualdade salarial não é apenas um problema das mulheres, é um problema de eficiência econômica e de desenvolvimento social”, afirma. Para Bezerra, a situação é ainda mais grave no caso das mulheres negras, que enfrentam barreiras relacionadas simultaneamente a gênero e raça.

A vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Isadora Osterno, acrescenta que a redução da renda feminina tem reflexos diretos no bem-estar das famílias. De acordo com ela, a renda das mulheres costuma influenciar decisões ligadas à educação e à saúde dos filhos, ampliando o impacto social da desigualdade.

Diferença nacional é maior

Apesar das disparidades, o cenário local é menos desigual do que a média nacional. No Brasil, as mulheres recebem 26% menos que os homens, em média.

No país, a remuneração média feminina é de R$ 3.905, enquanto a masculina chega a R$ 4.953. A disparidade se torna ainda mais acentuada quando se compara mulheres negras com homens não negros: a diferença média chega a R$ 3,4 mil, equivalente a 53%.

Segundo Osterno, a diferença relativamente menor no Ceará pode estar ligada à presença significativa do setor público e de áreas de serviços com estruturas salariais mais padronizadas. Ainda assim, ela ressalta que o dado não significa ausência de desigualdade, mas pode refletir salários médios mais próximos entre si.

Disparidade aparece em todos os níveis

O relatório mostra que a desigualdade salarial se repete em diferentes níveis de ocupação, incluindo cargos de liderança. Entre dirigentes e gerentes, por exemplo, a remuneração feminina corresponde a 72,6% da masculina.

A mentora de carreiras e doutora em Gestão da Inovação Renata Seldin afirma que o problema está ligado a estruturas organizacionais consolidadas.

Muitas organizações ainda se escondem atrás de números agregados, sem apresentar ações concretas que sustentem um processo real de equalização salarial”, diz.

Ela defende que processos de seleção e promoção tenham critérios claros e livres de vieses, além de mudanças culturais nas empresas para evitar que fatores como a maternidade sejam tratados como risco profissional.

Empresas ainda têm pouca estrutura

A legislação brasileira exige que empresas com 100 ou mais empregados adotem medidas para combater a desigualdade salarial, como transparência nos pagamentos, canais de denúncia e programas de diversidade.

No Ceará, porém, a estrutura ainda é limitada:

  • 47% das empresas têm plano de cargos e salários
  • 25% possuem políticas de incentivo à contratação de mulheres

Para Adriana Bezerra, o tema precisa ser tratado como questão de governança empresarial. “Diversidade e equidade não são apenas pautas sociais, mas estratégias de sustentabilidade e competitividade”, afirma.

(Portal folha do vale)

(Foto: Reprodução)

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