Casal é preso suspeito de manter idosos em cárcere privado em Aquiraz

 



A Polícia Civil do Ceará (PC-CE) prendeu um homem e uma mulher suspeitos de manter em cárcere privado, por mais de um ano, um casal de idosos, pais do autuado. As vítimas, de 78 e 80 anos, foram localizados nesta quinta-feira, 2, em uma casa do Porto das Dunas, em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza.

Segundo as investigações, o crime foi praticado tendo como intuito a apropriação das rendas e o "isolamento afetivo" das vítimas. A Polícia Civil descreveu que o imóvel onde os idosos foram encontrados apresentava péssimas condições de higiene.

"O pavimento superior da casa estava inteiramente tomado por fezes e urina de animais, com o piso extremamente escorregadio, em condições de insalubridade totalmente incompatíveis com a dignidade e com a subsistência de qualquer ser humano", aponta o Auto de Prisão em Flagrante (APF).

"Todas as janelas da residência estavam vedadas internamente com sacos plásticos pretos, impedindo por completo a entrada de luz natural e de ventilação, mantendo os idosos em completa escuridão", acrescenta o documento, que ainda detalha que um cachorro morto foi achado em um congelador.

As vítimas estavam "debilitadas" e "pálidas". Conforme a PC-CE, o idoso tem Alzheimer em estágio avançado. Ainda conforme a investigação, ele não recebia os cuidados médicos e de higiene necessários.

Somente a esposa dele estaria lhe prestando auxílio, mas a mulher "também se encontrava em situação de extrema vulnerabilidade em razão de sua avançada idade".

Familiares denunciaram desaparecimento em maio de 2025

Conforme o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da RMF, familiares e amigos dos idosos não sabiam do paradeiro deles desde 11 de maio de 2025. Um Boletim de Ocorrência chegou a ser feito registrando o desaparecimento.

"O contato dos idosos com o resto do núcleo familiar era rigorosamente limitado e controlado por terceiros, ocorrendo apenas por meio de mensagens frias no aplicativo WhatsApp, sem qualquer contato telefônico direto, chamada de vídeo ou visitas presenciais, o que acendeu um definitivo sinal de alerta nas autoridades de segurança pública", descreveu o Ministério Público Estadual (MPCE) em parecer.

Na quinta-feira, após localizarem a casa onde os idosos estavam, policiais da Delegacia de Polícia de Pessoas Desaparecidas montaram campana nas proximidades do imóvel — “localizado em rua deserta e com pouquíssima circulação de pedestres”, conforme o APF.

Os investigadores flagraram o momento em que os autuados deixaram a casa “às pressas”, portando malas de viagem e outros pertences pessoais.

"A rápida e precisa intervenção da polícia interrompeu a fuga dos recorridos, que demonstravam absoluto descaso com a sorte dos idosos que seriam deixados para trás, desamparados e trancados no interior do domicílio", afirmou o MPCE.

Idosos permaneceriam trancados 24 horas por dia

Ainda conforme a Polícia Civil, os suspeitos instalaram câmeras de segurança na área interna da casa e contrataram segurança armada para monitorar as imediações.

Os policiais também ressaltaram no APF que a residência onde os idosos se encontravam havia sido alugada mediante contrato verbal, sem vínculo a nenhuma plataforma "para ocultar deliberadamente a presença e a situação das vítimas no local".

O caseiro do imóvel afirmou à Polícia que os idosos permaneciam trancados 24 horas por dia e não saíam nem para tomar sol ou caminhar. Já o filho do casal "vivia trancado, sem trabalhar". O funcionário ainda disse ter sido ameaçado pelo suspeito após cobrar aluguéis e contas de energia atrasadas.

Outro ponto destacado no APF diz respeito à apropriação indébita de um carro que o suspeito havia locado em 2020 de uma empresa.

Suspeitos têm liberdade provisória concedida pela Justiça

Em audiência de custódia realizada nesta sexta-feira, 3, os autuados tiveram a liberdade provisória concedida, mediante monitoramento por tornozeleira eletrônica.

Na decisão, a juíza Ana Célia Pinho Carneiro destacou que o crime não foi praticado com violência física direta contra as vítimas, "mas sim o isolamento, o controle das comunicações e a restrição à liberdade de locomoção por meio de coação de natureza predominantemente psicológica e ambiental, circunstância que, embora não afaste a gravidade da conduta, autoriza a ponderação quanto à suficiência de medida cautelar diversa da prisão, desde que apta a neutralizar o risco concreto de reiteração e de interferência do autuado junto às vítimas".

O MPCE recorreu da decisão, argumentando que a soltura dos investigados gera perigo à ordem pública, levando em consideração a “extrema crueldade e audácia demonstradas” e as ameaças feitas contra o caseiro. Ainda foi citada a suposta tentativa de fuga.

 (O Povo - Online)

(Foto: Fábio Lima)

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