Ceará tem 147 cidades com alta densidade de focos de calor

 



Quase 80% dos municípios cearenses possuem alta densidade de focos de calor, conforme plataforma lançada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Vital Strategies nesta quinta-feira, 23.

Intitulada "Painel Crianças e Meio Ambiente", a ferramenta pesquisou indicadores ambientais em mais de 5,5 mil cidades brasileiras e, no Ceará, apontou 147 cidades em situação de urgência para focos de calor.

Para obter esse dado, o Unicef realizou a proporção entre a quantidade de focos de calor presente nos municípios cearenses e suas populações totais, e comparou os resultados de cada local com os de outras cidades similares em tamanho e número de habitantes.

Essa comparação originou uma média para cada faixa populacional, com os municípios muito acima dela sendo considerados de alta prioridade e os que ficaram abaixo, baixa prioridade.

Confira a classificação de cada município cearense de acordo com o painel.



O especialista em mudanças climáticas do Unicef, Danilo Moura, explica que boa parte desses focos de calor são representados por queimadas, em especial as geradas pelo ser humano.

Junto ao óbvio aumento da temperatura na região onde acontecem, essas queimadas acarretam prejuízos como a degradação do solo, vegetações e deterioração da qualidade do ar.

"Densidade de foco de calor é um indicador que mede basicamente queimadas. A queimada é um dos fatores determinantes da baixa qualidade do ar no Brasil. Esse indicador está medindo o quanto que esse município, comparado com municípios parecidos com ele, tem mais focos de calor do que se esperaria para aquele perfil de município", afirma Moura.

A alta quantidade de focos de calor exige uma atenção maior durante o segundo semestre do Ceará, em especial para este ano, onde são esperadas condições graves de El Niño.

Isso porque o fenômeno tende a intensificar condições climáticas ao redor do planeta, incluindo o segundo semestre cearense, conhecido por uma baixa quantidade de chuvas, fortes ventos e temperaturas mais elevadas.

De acordo com a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, a expectativa é de que os termômetros no Ceará subam entre 1,5°C e 2°C até dezembro.

"A interação entre o El Niño e as mudanças climáticas que já estão acontecendo tem essa característica de potencializar os impactos da mudança do clima. Onde chove ela potencializa chuvas, onde tem seca ela potencializa a seca e onde faz mais calor ela faz fazer mais calor ainda", destaca o especialista do Unicef.

Condições de seca têm migrado para o Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.

Uma das surpresas do levantamento foi a concentração de municípios em alta prioridade para secas no Sudeste e Centro-Oeste do País. As regiões lideram o indicador no país com respectivamente 38% e 28% das cidades no estágio mais alto, o que as coloca à frente do Nordeste, que teve índice próximo a 0%.

Segundo Moura, a explicação para esse cenário é que as cidades do Sudeste e Centro-Oeste têm passado cada vez mais dias consecutivos sem chuva, principal fator analisado nesse indicador específico.

O especialista do Unicef explica que essas regiões ainda devem registrar mais precipitações que o Nordeste, mas que os períodos de estiagem cada vez mais longos são sinais claros de que a emergência climática tem mudado o que compreendemos sobre o clima do Brasil.

"Com a mudança do clima, a gente tem visto uma mudança nos padrões de seca e de chuva no Brasil. É um fenômeno visível mesmo para quem não estuda esses dados a fundo. O que o indicador está mostrando é que você tem um conjunto de municípios que não necessariamente a gente associa a essa ideia de seca, mas têm enfrentado um aumento dos períodos longos de seca nos últimos anos", aponta Moura.

Ao contrário do que é atribuído historicamente, há um pequeno grupo de municípios cearenses apontados pelo estudo onde o problema não é mais a seca, mas sim a grande recorrência de chuvas intensas.

Fortaleza, Maracanaú, Pacatuba, Itaitinga, Eusébio, Aquiraz, Pindoretama, Horizonte, Pacajus, Guaiúba, Palmácia, Frecheirinha e Mucambo são destacadas como os municípios do Ceará que mais precisam desenvolver políticas públicas de prevenção a grandes chuvas, com base nas ocorrências dos últimos anos.

Mudanças climáticas devem ser mais prejudiciais para as crianças

A plataforma também destaca que todos os impactos gerados pelas mudanças climáticas devem atingir de forma mais contundente as crianças dos estados brasileiros.

Entre os efeitos aqui já citados, a diminuição da qualidade do ar tende a ser extremamente prejudicial para as crianças na casa dos zero a 12 anos, por essa ainda estarem em fase de desenvolvimento respiratório.

"A crianças estão na linha de frente do impacto dos fenômenos ambientais e da poluição. Por questões biológicas, por ainda estarem na sua fase de desenvolvimento e uma série de outros fatores. As crianças bebem mais água, comem mais comida e respiram mais ar que um adulto proporcionalmente. Se o ar, água ou comida estão contaminados o impacto sobre essa criança é pior", afirma Moura.

No caso das chuvas intensas, o prejuízo mais intenso às crianças está diretamente relacionado com as questões socioeconômicas.

Com as famílias de menor renda per capita sendo as mais afetadas pelos prejuízos das grandes chuvas, as crianças dessas famílias também tendem a sofrer em demasia com a perda do núcleo familiar, imóvel onde vivem, bens que possuem ou continuidade dos estudos.

"As chuvas impactam populações mais pobres de forma mais intensa. E as crianças são desproporcionalmente distribuídas nas famílias do Brasil. Você tem mais crianças nas famílias mais pobres do que nas mais ricas. Na hora em que as pessoas estão perdendo casa e sofrendo as consequências imediatas dessas chuvas, as crianças são impactadas de forma desproporcional", conclui Moura.

Santana do Cariri é o único município cearense com estado grave em mais de dez indicadores

O município de Santana do Cariri, no extremo sul do Ceará, foi o único do Estado a figurar em uma indesejada lista do estudo: o de alta prioridade em dez ou mais quesitos.

Qualidade do ar, poluição por transporte rodoviário, chuvas intensas e secas em anos recentes foram os únicos indicadores em que a cidade não esteve em estado mais grave.

Ela se soma a outros 322 municípios do Maranhão, Piauí, Minas Gerais e das regiões Norte e Centro-Oeste como os piores avaliados no país pela pesquisa.

Por fim, o estudo feito pela Unicef e Vital Strategies traz uma série de orientações em políticas públicas que podem ser adotadas nesses municípios, a fim de tornar menos crítico o impacto das mudanças climáticas nessas localidades.

"Você precisa montar uma estratégia que consiga de alguma forma combinar todos esses temas. Uma das coisas que vemos nos indicadores é que esses municípios que possuem muitos desafios ao mesmo tempo têm uma correlação muito alta entre os indicadores de infraestrutura ambiental e urbana. Esses são desafios que você pode buscar ajuda dos governos estadual e federal para enfrentá-los de forma conjunta", conclui Moura.

(O Povo - Online)

(Foto: FCO FONTENELE)

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