Romance de Márcio Lacerdda aproxima Freud da cultura e do imaginário do sertão

 



O que as teorias de Sigmund Freud têm em comum com o sertão cearense? Para o escritor e psicanalista Márcio Lacerdda, natural de Quiterianópolis, nos Inhamuns, a resposta está no romance O Sertão Encantado de Ritinha, obra que reúne regionalismo, cultura popular e reflexões sobre o comportamento humano.

Premiado com Menção Honrosa pela União Brasileira de Escritores (UBE) e traduzido para o inglês e o espanhol, o livro voltou a ganhar destaque após uma releitura feita pelo próprio autor à luz da obra Psicologia das Massas e Análise do Eu, de Freud.

A proposta aproxima dois universos distintos: o imaginário sertanejo, marcado por lendas, símbolos e personagens fantásticos, e a psicanálise, utilizada para compreender relações de poder, pertencimento e submissão presentes na vida em sociedade.

Na fictícia cidade de Juá, cenário de parte da narrativa, a seca afeta não apenas a terra, mas também as relações sociais. O Coronel Leôncio mantém sua influência por meio do controle dos recursos essenciais, enquanto Ritinha surge como símbolo de transformação e resistência.

Segundo Lacerdda, a força do coronel não se resume ao poder político e econômico. Sua liderança também se sustenta na necessidade humana de proteção, pertencimento e identificação com uma figura de autoridade, fenômeno analisado por Freud em seus estudos sobre o comportamento coletivo.

Ao longo da história, os moradores conhecem os abusos cometidos pelo coronel, mas permanecem fiéis ao líder. Para o autor, esse comportamento reflete mecanismos psicológicos que explicam por que grupos podem manter apoio a figuras que agem contra seus próprios interesses. A mudança ocorre quando a ilusão deixa de sustentar o controle coletivo e a comunidade passa a enxergar a realidade.

Natural de Quiterianópolis e radicado em Tauá desde a infância, Márcio Lacerdda construiu sua trajetória inspirado nas histórias, lendas, cordéis e tradições dos Inhamuns. Além da literatura, dedica-se aos estudos em psicanálise, combinação que marca suas obras pela união entre fantasia, crítica social e profundidade psicológica.

Além de O Sertão Encantado de Ritinha, o autor também publicou Inhamuns: Lendas, Assombrações e Liberdade, reforçando sua proposta de transformar o imaginário sertanejo em literatura contemporânea com alcance universal.

Ao aproximar a psicanálise da cultura popular nordestina, Lacerdda demonstra que os grandes conflitos humanos também estão presentes nas histórias do sertão. A obra convida o leitor a refletir sobre liberdade, consciência e os mecanismos que influenciam as escolhas individuais e coletivas.

(Portal folha do vale)

(Foto: Reprodução)

 

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