Agricultor é agredido e tem rosto fraturado após reclamar que companheiro foi impedido de usar passe-livre em van no Ceará
Um homem de 37 anos, foi agredido e
ficou com lesões permanentes no rosto após uma discussão em Itapipoca,
no Ceará. O caso aconteceu no dia 11 de agosto de 2026, devido às lesões, o
agricultor teve fraturas na região do maxilar e precisou passar por cirurgias
em Fortaleza.
A
agressão ocorreu após o homem ter uma reunião com a Cooperita,
cooperação de vans que opera entre municípios da região norte do Ceará. O
encontro foi marcado para o agricultor representar o companheiro, um homem de
20 anos, que teria sido impedido de usar gratuitamente o serviço das vans. Os dois
possuem união estável.
Na
saída da reunião, o agricultor foi agredido por um homem identificado como José
Carlos de Sousa Rodrigues. Conforme documentos acessados pelo g1, ele teria ligações comerciais com um motorista da
cooperativa, mas não é funcionário da Cooperita. O g1 não conseguiu localizar a defesa de José Carlos.
Imagens
de câmera de segurança mostram José Carlos abordando e empurrando Fernando na
frente da sede da cooperativa. Em outro vídeo, ele apareceu segurando uma pasta
que pertencia a Fernando e quebrando o celular do
agricultor ao arremessar o aparelho no chão.
A
Polícia Civil informou que a Delegacia de Itapipoca investiga o crime de lesão
corporal e disse que um suspeito foi identificado. Porém, ninguém foi preso até
a publicação desta matéria.
Fernando
entrou com um processo por danos materiais e denunciou
a Cooperita, cooperação de vans que opera entre municípios da região
norte do Ceará. O g1
entrou em contato com a defesa da cooperativa, mas não
recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
" Eu perdi a
mastigação, sequela definitiva, estética. Parestesia [formigamento/dormência]
no lado [direito]. Não sinto mais nada", lamentou Fernando.
Discussão por passe-livre
💡 A Síndrome de
Tourette é uma doença relacionada à saúde mental e neurológica, que comumente
aparece associada a uma variedade de problemas emocionais e de comportamento.
Entre os sintomas estão tiques motores (repetição de gestos obscenos, repetição
de movimentos de outras pessoas) e tiques vocais (como a repetição de palavras
obscenas, repetição ou imitação de ecos de palavras que a própria pessoa acabou
de dizer, repetição de palavras ou frases que ouve de outras pessoas).
➡️ O passe-livre é
destinado a conferir gratuidade ao direito de assentos reservados nos serviços
regulares convencionais (ônibus) e nos serviços regulares complementares (vans)
às pessoas com deficiência e com hemofilia, comprovadamente carentes. Também
têm direito pessoas vivendo com HIV e AIDS, devidamente diagnosticadas,
mediante a comprovação da instituição em que é realizado o tratamento de saúde.
No
dia 3 de agosto de 2026, Gabriel foi, sozinho, utilizar o serviço da van
operada pela Cooperita. No entanto, motorista e cobrador que trabalhavam na van
tentaram impedir Gabriel de utilizar a gratuidade. Ele conseguiu utilizar o
serviço, mas, na volta para casa, no mesmo dia, passou por novo constrangimento
do mesmo funcionário que alegou que "Gabriel já havia viajado
gratuitamente naquele dia".
Ao
g1, a Agência Reguladora do Ceará (Arce)
explicou que é necessário possuir um cartão específico
de gratuidade para que pessoas diagnosticadas com alguma deficiência
possam utilizar o benefício. No entanto, o casal argumentou que Gabriel
utilizava o serviço há meses e a Cooperita não cobrava a apresentação do
cartão.
Até
então, era necessário apenas que Gabriel mostrasse um qr-code impresso em um
crachá que ele usava no pescoço. Ao ler o qr-code, era possível acessar um
Certificado da Pessoa com Deficiência emitido, em nome de Gabriel, pelo
Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania.
No
dia 4 de agosto, Gabriel passou, novamente, por constrangimento ao tentar
utilizar a gratuidade na van. Dessa vez, ele estava acompanhado de Fernando. O
casal acredita que o impedimento tenha também homofobia envolvida.
"Vocês acham que são melhores que os outros", teria dito o
funcionário da empresa, em referência a ambos serem homossexuais. O episódio
provocou a crise que levou Gabriel à internação hospitalar.
Agressão após reunião
"Quando ele foi me
atender, eu falei assim: 'A situação de discriminação agora já virou uma
situação um pouco mais séria, porque o meu esposo precisou ser internado. Ele
olhou para mim e falou assim: 'Eu não tenho nada a ver com isso. Eu não quero
saber disso'", lembrou Fernando.
Fernando
foi recebido pelo presidente da Cooperita, Ricardo Oliveira Lima. Os dois
discutiram após Ricardo perceber que Fernando estava filmando a conversa com um
aparelho celular. Os ânimos entre os dois se exaltaram e Ricardo pediu que
Fernando fosse embora.
Ainda
na frente da sede da Cooperita, o agricultor foi surpreendido pela chegada de
José Carlos, que iniciou as agressões físicas. Devido às agressões, Fernando
procurou a Delegacia de Itapipoca para denunciar o caso. Ricardo também foi a
unidade policial para depor.
O
g1 teve acesso ao depoimento prestado por
Ricardo Oliveira Lima na delegacia de Itapipoca. À polícia, ele disse que
conversou com Fernando até o momento em que percebeu que ele gravava a conversa
com um celular.
Ricardo
teria dito a Fernando que "aquele não era o caminho" e perguntou se o
agricultor queria extorqui-lo. Ele se recusou a continuar a reunião se Fernando
continuasse gravando. Então, pediu que o agricultor fosse embora da sede da
cooperativa.
Lesões permanentes
O
agricultor foi encaminhado a Fortaleza em uma ambulância disponibilizada pela
Prefeitura de Itapipoca. Ele, primeiro, foi atendido em um hospital particular
e, depois, encaminhado ao Hospital Instituto Dr. José Frota (IF), no Centro de
Fortaleza.
"Fui informado pela equipe médica que tem uma sequela
permanente em relação a um nervo da face do Fernando. Não tem como
corrigir. Ele rompeu um nervo importante do maxilar, vai sentir dormência no
queixo e na parte do maxilar direito", disse Gabriel após a cirurgia do
companheiro.
Fernando
foi diagnosticado com:
- Fratura
da mandíbula causada pela agressão física;
- Complicação
mecânica de outros dispositivos, implantes e enxertos ósseos internos;
- Assimetria
facial estrutural e protusão;
- Colapso
da Dimensão Vertical de Oclusão - DVO (redução no terço inferior da face
com padrão braquifacial severo e perda de suporte labial/tecidos moles;
- E
impotência funcional mastigatória severa (perda total da capacidade oclusal
por ausência de engrenamento dental e comprometimento alveolar).
A
defesa de Fernando pediu à Justiça que a Cooperita
pague uma indenização de R$1.924.129,56 referentes aos danos (morais,
mentais, físicos e materiais) causados no episódio da agressão.
"Ele destruiu a
minha boca. A minha alimentação é comum, só que é mais reforçada, porque eu não
tenho dentes. A alimentação vai encarecer meu custo de vida. Hoje a gente está
vivendo do quê? De empréstimos", lamentou o agricultor.
Decisões judiciais
No
último dia 2 de outubro, a Justiça determinou que a Cooperita ficará
responsável por custear:
- Medicamentos
exclusivamente mediante exibição de três orçamentos, sempre com
apresentação de prescrição médica atualizada e indicando relação com o
fato [fraturas], cujo pagamento deve se dar exclusivamente ao fornecedor;
- Transporte
para atendimento realizado fora do município de domicílio [Trairi] do autor fica
condicionado à demonstração da inexistência de profissional ou
estabelecimento apto ao atendimento em seu domicílio ou em localidade mais
próxima, observada a ampliação gradativa do raio geográfico, bem como,
quando necessária modalidade especial de transporte em razão das
limitações decorrentes das fraturas, à correspondente indicação pelo
médico assistente.
O
juiz Gustavo Ferreira Mainardes decidiu ainda que "as consultas
médicas/odontológicas só poderão ser agendadas mediante prévio encaminhamento
da relação dos profissionais existentes [sempre primeiro indicando aqueles do
município e, não havendo, ampliando o raio geográfico gradativamente], com
respectivo valor da consulta e indicação de ao menos 3 – cabendo ao réu eleger
e acordar, diretamente, o custeio".
"Os
exames - que igualmente deverão observar a praça de domicílio e ampliação
gradativa do raio geográfico – igualmente demandam 3 orçamentos, fornecimento
dos contatos diretamente ao réu para tratamento direto das questões financeiras
e ficam sujeitos à prescrição médica atualizada constando vinculação de sua
recomendação ao tratamento das lesões", complementou o juiz.
(G1)
(Foto: Reprodução)
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