Cearenses criam material capaz de regenerar pele e são finalistas em feira de ciências internacional

 



A ciência desenvolvida dentro de uma escola pública do interior do Ceará está prestes a ganhar projeção internacional. Estudantes da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Marconi Coelho Reis, em Cascavel, são finalistas da Mostratec — Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia, considerada uma das principais feiras científicas da América Latina.

O projeto CellScale foi desenvolvido a partir de problemas observados no cotidiano da própria comunidade e propõe o aproveitamento de resíduos que normalmente seriam descartados. A equipe criou um biomaterial utilizando biocelulose produzida a partir de resíduos da cana-de-açúcar e hidroxiapatita extraída de escamas de peixe.

Agora, os estudantes precisam de apoio financeiro para representar o Ceará presencialmente na etapa final da competição, que será realizada em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, ainda neste mês.

As despesas com passagens aéreas, hospedagem, transporte e alimentação ficam sob responsabilidade das famílias dos participantes. Por isso, a equipe iniciou uma mobilização com vaquinha e rifas para arrecadar os recursos necessários para a viagem.

“Como somos estudantes de escola pública, esses custos são muito altos para as nossas famílias. Por isso, criamos uma mobilização com vaquinha e rifas para tornar esse sonho realidade”, explica João Pedro Monteiro Silva, de 18 anos, monitor do laboratório da escola e mentor da pesquisa que deu origem ao CellScale.

Da realidade de Cascavel para a pesquisa científica

A ideia do projeto surgiu a partir de problemas presentes na própria realidade dos estudantes. Durante o desenvolvimento da pesquisa, eles observaram o grande volume de resíduos gerados tanto pela cadeia da cana-de-açúcar quanto pelo processamento de pescados.

Segundo João Pedro, o Brasil está entre os maiores produtores mundiais de cana-de-açúcar, gerando grandes quantidades de bagaço. No setor pesqueiro, as escamas também representam uma parcela significativa dos resíduos produzidos durante a filetagem.

Em Cascavel, os estudantes observavam diariamente o descarte de escamas de peixe em feiras e outros pontos da cidade. Ao mesmo tempo, identificaram problemas relacionados à contaminação de corpos d’água por substâncias como óleos e corantes.

Foi a partir dessa realidade que surgiu a pergunta que orientou a pesquisa: por que não transformar resíduos encontrados na própria comunidade em uma solução tecnológica?

Com orientação dos professores, os estudantes desenvolveram, no laboratório da escola, um scaffold, uma estrutura tridimensional e porosa produzida com biocelulose obtida a partir do resíduo da cana-de-açúcar e integrada à hidroxiapatita extraída das escamas de peixe.

A pesquisa posteriormente contou com apoio da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que contribuíram para a realização de análises relacionadas ao material desenvolvido.

O resultado foi um biomaterial biodegradável, de baixo custo e com potencial de aplicação em diferentes áreas.

Biomaterial pode ser utilizado na área ambiental e biomédica

De acordo com João Pedro, o material desenvolvido apresenta possibilidades de aplicação tanto na área biomédica quanto ambiental.

Na área da saúde, a estrutura apresenta características que podem favorecer estudos relacionados à regeneração tecidual, produção de curativos e regeneração óssea. Entre as características analisadas estão a biocompatibilidade, a capacidade de retenção de água e a estrutura porosa rica em minerais.

Na área ambiental, uma das principais aplicações estudadas é o tratamento de água contaminada.

Nos testes realizados pela equipe, o material apresentou resultados de remoção de contaminantes, incluindo:

  • 100% de remoção do corante têxtil Azul de Metileno;
  • 100% de remoção de óleo mineral contaminante;
  • redução superior a 99,7% da cor aparente da água;
  • redução de 98,04% da turbidez;
  • estabilidade do desempenho em diferentes faixas de pH;
  • possibilidade de reutilização por até 10 ciclos de filtragem;
  • custo estimado de aproximadamente R$ 0,02 por aplicação.

Os resultados fizeram com que a pesquisa avançasse para a etapa final da Mostratec 2026.

Escola já acumula experiência em competições científicas

A classificação para a Mostratec não é o primeiro destaque nacional e internacional conquistado pela EEMTI Marconi Coelho Reis.

A escola já participou quatro vezes consecutivas da Regeneron ISEF, considerada uma das maiores feiras de ciências e engenharia do mundo, que reúne estudantes de diversos países.

Neste ano, a instituição também conquistou o primeiro lugar em uma categoria e o quarto lugar em outra competição científica.

Para os estudantes, chegar novamente a uma etapa internacional representa não apenas o reconhecimento da pesquisa, mas também a possibilidade de mostrar o potencial da ciência produzida nas escolas públicas do interior.

“É um orgulho enorme para nós, jovens do interior do Ceará, mostrar que, com criatividade e dedicação, é possível transformar lixo em inovação tecnológica de nível internacional”, afirma João Pedro.

Mobilização busca garantir viagem ao Rio Grande do Sul

Apesar da classificação, a participação presencial na Mostratec ainda depende da arrecadação dos recursos necessários para custear a viagem.

A equipe formada pelos estudantes Ana Clara e Carlos Vinícius, sob orientação dos professores Guilherme Maciel e Francisco Augusto, busca apoio para viabilizar as despesas com deslocamento, hospedagem, alimentação e transporte durante o período da competição.

A mobilização reúne uma vaquinha e rifas, com o objetivo de garantir que os estudantes de Cascavel possam apresentar o CellScale presencialmente na etapa final da Mostratec.

Para a equipe, a oportunidade representa levar para além do Ceará uma pesquisa que nasceu de problemas observados no cotidiano e que encontrou na ciência uma forma de transformar resíduos em possibilidades de inovação.

(Sinalnews)

(Foto: Diário do Nordeste)

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