Aluno do CE cria sistema de irrigação com garrafas, muda trabalho no campo e ganha prêmio científico
“Eu nunca tinha ouvido meu nome em
nada e ouvir em primeiro lugar foi muito gratificante”. A medalha de
ouro veio como reconhecimento de um projeto idealizado, experimentado
e aplicado à própria comunidade: a realidade de agricultores
no interior do Ceará. Desenvolver formas alternativas de
bombas de irrigação na zona rural de Granja, cidade
no Norte do Estado, foi o desafio do estudante da rede
pública, Francisco Nycollas Machado Guarinho.
O reconhecimento despertou
orgulho, fortaleceu a autoestima e enfatizou o papel fundamental da
escola em potencializar saberes e transformações.
Para Nycollas a escola é literalmente um espaço de experimentação. A unidade
cujo nome formal é Escola de Ensino Profissional Guilherme Teles Gouveia é
conhecida popularmente em Granja como “escola agrícola”.
O local de grande extensão tem as
tradicionais salas de aula, biblioteca, auditório, quadra poliesportiva e áreas
administrativas, mas, em paralelo é uma “grande fazenda” com, dentre outros,
área de plantio, horta, criação de animais e curral para ovinos e
caprinos.
Esta matéria integra a série “Terra de Sabidos”,
publicada pelo Diário do Nordeste com
patrocínio da Assembleia Legislativa do Ceará e cujo foco é contar
histórias de estudantes da rede pública estadual do Ceará e da rede
municipal de Fortaleza, que, via educação, tiveram as trajetórias alteradas,
conquistado oportunidades, e reconhecimentos local, estadual e nacional.
Escola agrícola
Na unidade, os alunos permanecem de 7h
às 16h40 e, em formação profissional, optam pelos cursos de Agropecuária,
Agroindústria ou Aquicultura. Nycollas ao ingressar
no ensino médio ainda em 2020, escolheu Agropecuária.
Bem antes, ainda no ensino
fundamental ele já havia se deslumbrado com a unidade. Em uma visita à
“escola-fazenda”, quando ainda era criança, ele idealizou retornar ao local,
como estudante do ensino médio.
“Como nossa escola é uma fazenda e tem
algumas localidades perto, sabemos que o pequeno agricultor convive com o
período de seca muito grande, vimos a necessidade do pequeno agricultor poder
plantar e colher o ano todo”, detalha ele.
A demanda por incremento da irrigação
existe, mas as dificuldades devido à baixa renda dos agricultores também. Foi
ciente dessa equação que Nycollas e a colega de sala Ana Beatriz
Ferreira de Sousa, projetaram o dispositivo para potencializar a
irrigação na zona rural da cidade.
“Eles
(agricultores) não podem comprar uma bomba hidráulica convencional para fazer a
irrigação. A gente buscou algumas alternativas e chegamos ao nosso protótipo de
fazer uma bomba alternativa de baixo custo com materiais recicláveis”.
Francisco Nycollas
Aluno da rede
pública
Garrafas, canos de PVC, ferramentas de
abertura e fechamento compõem a bomba de irrigação. Foram 3 meses de
planejamento e manejo manual para ajustar o que seria, posteriormente,
experimentado no campo.
O protótipo da bomba é simples. Mas o
resultado pode alterar de modo significativo as rotinas de quem atua de sol a
sol no plantio.
“Na
aula de empreendedorismo eu falei, Bia vamos fazer alguma coisa para
apresentar. Mandei algumas coisas para ela. Foi quando surgiu a bomba. Nós
planejamos. Nosso primeiro protótipo foi com o garrafão de 5 litros, depois com
garrafas pets menores, até chegar no protótipo de agora, com garrafas
retornáveis, por conta da pressão”.
Francisco Nycollas
Aluno da rede
pública
Desenvolvimento do dispositivo
No processo, protótipos, cujos custos
são estimados em R$ 100,00 por unidade, foram replicados e a
escola os distribuiu entre agricultores do entorno da instituição. Lugares
localizados a 40 e 50 km de distância.
A boa ideia, que une materiais de
baixo custo e bombeamento do processo de irrigação, carecia de aplicabilidade.
Nas comunidades vizinhas, a efetividade foi comprovada.
O estudante também participou da Feira
Brasileira de Jovens Cientistas e do Prêmio Respostas para o
Amanhã, um programa global da Samsung, que desafia alunos e
professores da rede pública do Brasil a desenvolverem soluções científicas ou
tecnológicas para problemas locais.
“A
educação sempre foi importante, mas desde que pisei nessa escola, vi que não
podia desistir de nada, uma escola de tempo integral, eu não podia ser mediano.
Ano passado pensei em desistir porque a situação lá em casa estava meio
precária. Mas em conversas com o André, vi que não podia”.
Francisco Nycollas
Aluno da rede
pública
Na família de Nycollas, conta ele, o
pai “não conseguiu completar o Ensino Médio”, já a mãe alcançou essa realização
e é professora. “Estamos nessa batalha constante no dia a dia”, completa ele.
O estudante fez o Enem em 2022, mas
pretende ser policial militar. Já se inscreveu para o concurso que ocorrerá em
2023.
Do ciclo que se encerra na escola,
Nycollas garante que levará “coisas para o resto da vida”.
“No começo do projeto eu nem me via
participando de feira científicas. E participar foi muito gratificante. Depois,
eu ficava atrás dele (professor) para procurar se tinha mais evento”, relata.
Um dos legados evidentes é o orgulho do trajeto. Acreditar nas competências, na
própria capacidade e no saber construído.
(Diário do
Nordeste)
(Foto: Fabiane de
Paula)
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