Jericoacoara encolhe e mar avança, em média, 10 metros por ano sobre praia
Quem
reside ou visita com frequência as praias de Jijoca de Jericoacoara,
no Litoral Norte cearense, especialmente no entorno do Parque Nacional de
Jericoacoara, pode ter percebido o avanço do mar sobre a faixa de areia nos
últimos anos. Medições da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança
do Clima (Sema), inclusive, já chegaram a registrar o risco de perda de até 10
metros de faixa de areia por ano em alguns trechos.
Para
entender e combater o processo natural de erosão, a Universidade
Federal do Ceará (UFC), por meio do Instituto de Ciências do
Mar (Labomar), elaborará, a partir de agosto, um
diagnóstico sobre o fenômeno no entorno da Vila de Jericoacoara,
que poderá embasar estratégias sustentáveis para mitigá-lo.
A
praia de Jericoacoara enfrenta um processo acelerado de erosão,
consequência da ocupação das áreas com transporte de sedimentos ao longo do
tempo e de eventos climáticos extremos, como ressacas e elevação do nível do
mar, segundo detalham ao Diário do Nordeste o coordenador do projeto
da UFC, o professor do Labomar Alexandre Medeiros de Carvalho, e a diretora da
unidade acadêmica, a professora Lidriana Pinheiro.
O
fenômeno já causou recuos totais da faixa de areia de até 48 metros na praia da
vila, além de mostrar uma variação de redução superior a 10
metros ao ano da linha de costa no trecho de maior fluxo turístico — da vila à
Pedra Furada —, segundo dados observados entre 2016 e 2024, presentes
no Plano de Ações de Contingência para Processos de Erosão Costeira
do Ceará (PCEC), da Sema.
Atualmente,
a localidade não possui estruturas de contenção, como os espigões encontrados em Fortaleza e em Caucaia. Então, encontrar
uma solução para a demanda é algo classificado como urgente pelo prefeito de
Jijoca de Jericoacoara, Leandro Cezar, uma vez que os efeitos da erosão já
afetam a rotina dos moradores e empreendimentos.
Inclusive,
para tentar frear a intensidade das ondas, alguns comerciantes
instalaram estruturas de proteção, segundo detalha o diretor do
Conselho Empresarial da Vila de Jericoacoara (Consempjeri), Fábio Nobre.
No
entanto, ações emergenciais como essas são de
baixa eficiência e evidenciam a necessidade de soluções sustentáveis,
como explicam os professores. “A constatação de que medidas de contenção da
erosão costeira vêm sendo frequentemente implementadas sem a devida consideração
dos processos ambientais que regulam a dinâmica costeira despertou preocupações
quanto aos possíveis impactos.”
Diante
desse contexto, o Labomar decidiu adotar uma abordagem mais direta: reuniu
pesquisadores e especialistas com experiência na temática para desenvolver um
projeto focado no estudo das condições atuais do sistema
costeiro ligado ao Parque Nacional de Jericoacoara (Parna de Jericoacoara).
A iniciativa foi formalmente apoiada pela UFC em 12 de junho.
A
partir desse diagnóstico, pretende-se fornecer subsídios técnicos e científicos
que contribuam para o planejamento e a gestão integrada da zona costeira,
promovendo estratégias de adaptação e mitigação compatíveis com a conservação
ambiental e o desenvolvimento sustentável da região.”
Como será feito o diagnóstico
Por meio
da integração de dados ambientais e socioeconômicos, uma equipe
multidisciplinar ligada à UFC analisará os processos erosivos ocorridos em
Jijoca de Jericoacoara, no âmbito do parque nacional, com equipamentos
oceanográficos e de geotecnologia de alta precisão.
Na
prática, o projeto identificará áreas vulneráveis,
avaliará impactos socioambientais e subsidiará a gestão costeira e a adaptação
às mudanças climáticas. “Essas informações irão contribuir para
um melhor entendimento das transformações costeiras e fornecer subsídios
científicos para o planejamento e a gestão sustentável do litoral”, explicam
Lidriana e Alexandre.
A
iniciativa reúne 12 pesquisadores experientes na temática, ligados a três
laboratórios da UFC — Laboratório de Oceanografia Geológica (LOG), Laboratório
de Oceanografia Física (LOF) e Laboratório de Processos e Impactos no Ambiente
Costeiro (CoastLab) —, além de estudantes de pós-graduação e de graduação na
área de Ciências do Mar.
Com financiamento
do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do
Governo Federal, o projeto conta com o apoio do Município e de instituições
locais. A participação da sociedade é celebrada pelos especialistas: “Esse
projeto traz uma grande inovação que consiste no engajamento da comunidade
local nas suas mais diversas etapas.”
Área onde acontecerá a análise
O que esperar dos resultados do estudo
A
proposta da iniciativa é apresentar um diagnóstico sazonal
detalhado dos processos costeiros da região, considerando as
condições atuais de disponibilidade de sedimentos na plataforma continental
interna, o transporte pela deriva litorânea e a dinâmica eólica, conforme
detalham Lidriana e Alexandre.
Os
dados gerados poderão contribuir para o aprimoramento das atividades
desenvolvidas pela população local relacionadas ao ambiente marinho, auxiliando
na gestão dos recursos costeiros e na adaptação às mudanças observadas na
dinâmica da região.”
A seguir, confira os principais resultados esperados do projeto:
- Realização de levantamentos
detalhados da morfologia e sedimentologia marinha e costeira;
- Coletas de dados hidrodinâmicos;
- Elaboração de modelos que simulam o
comportamento das correntes e ondas;
- Produção de mapas que mostram a
evolução da linha de costa e as áreas mais vulneráveis ao avanço da
erosão;
- Ações de educação ambiental e
cultura oceânica;
- Elaboração da Carta de Navegação
Comunitária, fornecendo subsídios para a segurança da navegação.
A
expectativa é que o estudo dure cerca de 12 meses, contemplando a sazonalidade
climática do município, e seja feito na Estação Científica da UFC em Jijoca de
Jericoacoara, cujas obras estão em andamento e devem ser concluídas no primeiro
semestre de 2027.
No
entanto, o levantamento de dados está previsto
para começar em agosto deste ano, logo após o encerramento das
ações administrativas entre a instituição de fomento e a liberação das licenças
de estudos pelos órgãos competentes, já que a área está inserida no Parque
Nacional de Jericoacoara.
Erosão pode afetar economia do
município
Devido à
redução da faixa de praia e à degradação da paisagem, Lidriana e Alexandre
explicam que a erosão
na praia de Jericoacoara pode reduzir as atividades tradicionalmente realizadas
pela comunidade, como a pesca artesanal e atratividades
turísticas, afetando, assim, hospedagem, alimentação e comércio.
Diante da
perspectiva, o prefeito Leandro Cezar celebra a iniciativa da UFC, que, segundo
ele, também é resultado de uma solicitação da administração local ao Executivo
federal. “O governo municipal está muito satisfeito com a parceria. [...] O
estudo deve descobrir quais medidas e intervenções deverão ser feitas para
diminuir estes impactos sem prejudicar o meio ambiente e, principalmente, não
interferir nas belezas naturais da praia de Jericoacoara.”
A
importância de encontrar uma solução que preserve o aspecto natural do ponto
turístico também é ressaltada pelo diretor do Consempjeri, Fábio Nobre.
"Era um pleito tanto da comunidade, do conselho comunitário, dos
moradores, quanto também dos empresários, para que essa solução fosse feita com
critério, para que se atingisse uma solução, por exemplo, que não [seja] uma
coisa que dê uma cara artificial à praia."
(Diário do Nordeste)
(Foto: JL Rosa)
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