Dengue chega aos 40 anos no Ceará com quase 900 mil casos e 680 mortes
Há 40
anos, a dengue voltava a representar um problema de saúde
pública para o Brasil. O mosquito Aedes aegypti
reemergiu, depois de anos erradicado, e passou a transmitir a doença. No Ceará,
casos da arbovirose foram registrados a partir de agosto de
1986. Em quatro décadas, foram quase 900
mil notificações oficiais, 680 mortes e sete epidemias no
território estadual.
De doença
pouco conhecida nos anos 1980, a dengue passou a ser uma
das viroses mais comuns do Brasil e do Ceará. O vetor, cada
vez mais adaptado ao clima, aos ambientes urbanos e até mesmo a
alguns inseticidas, não dá nem sinais de trégua.
Enquanto
isso, políticas públicas se adaptam e novas tecnologias são criadas para tentar
controlar o mosquito, diminuir a incidência de casos e, principalmente, evitar
mortes.
Para
relembrar os primeiros casos da virose, investigar por que o mosquito ainda é
uma ameaça à saúde pública, mapear quais foram as principais formas de combate
e as novas estratégias para prevenção contra a doença, o Diário do Nordeste
inicia hoje a série "Dengue - 40 anos".
Reemergência do
mosquito e a “tempestade perfeita”
Fruto dos
esforços para eliminar a febre amarela urbana, também transmitida
pelo Aedes aegypti, a erradicação do mosquito foi prioridade para
o Brasil no século XX. O País chegou a ser certificado
internacionalmente em 1958 pela Organização Pan-Americana de
Saúde (Opas) por conseguir eliminar o mosquito.
O
epidemiologista Antônio Silva Lima Neto, o Tanta, secretário executivo de
Vigilância em Saúde do Ceará, explica que o uso
indiscriminado de inseticidas para acabar com o mosquito atingiu a
eliminação do vetor, mas causou danos ambientais graves.
De
1955 a 1967, o Brasil ficou livre do Aedes aegypti,
conforme o mapeamento da reemergência da dengue no Brasil,
feito pelo geógrafo Rafael de Castro Catão e publicado na Revista Brasileira de
Geografia Médica e da Saúde. No entanto, logo depois vieram as reintroduções,
começando por Belém, capital do Pará. Em 1973, o mosquito foi novamente
erradicado.
Segundo
as fontes consultadas pelo pesquisador, em 1976 o mosquito voltou, dessa vez
por meio de Salvador, na Bahia. No ano seguinte, foi identificado no Rio de
Janeiro e seguiu para outras capitais e grandes cidades do Nordeste.
Em 1986,
a dengue já estava espalhada no Rio de Janeiro e no
Ceará.
“Quando
a gente pensa na reemergência, às vezes pensa no vírus. Mas o vírus estava aí,
ele só não tinha nenhum mosquito [para transmiti-lo]”
O médico avalia que, a partir disso, houve uma “tempestade perfeita”: vírus, mosquito e pessoas que nunca tinham sido infectadas.
Ondas epidêmicas: Ceará chegou a
ter mais de 63 mil casos em um só ano
Mesmo
presente de forma ininterrupta desde 1986, a quantidade
de casos de dengue registrados anualmente varia. Pelo menos em sete
anos diferentes, as notificações de casos no Ceará tiveram elevações bruscas,
caracterizando ondas epidêmicas.
A primeira
foi em 1987, no ano seguinte à
chegada da doença, quando o Ceará registrou 22.518 casos. Pela dificuldade de
realização de exames laboratoriais para comprovar a doença, é possível que haja
subnotificação nos registros da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) da época.
A
segunda epidemia de dengue foi em 1994. Nesse ano, segundo a Sesa, foram 47.789
notificações. Além da quantidade de pessoas infectadas, mais que o dobro das
registradas na primeira epidemia, um novo desafio foi detectado: a circulação
de outro sorotipo da dengue, o DENV2.
Ao todo, o
vírus tem quatro sorotipos conhecidos: DENV1, DENV2, DENV3 e DENV4. Quem
pega a dengue garante imunidade contra um sorotipo específico, mas continua
suscetível aos outros.
Por
exemplo, quem contrai o DENV1, se torna imune a este sorotipo e ainda pode ser
infectado pelos DENV2, DENV3 e DENV4. Assim, cada pessoa pode ser infectada
quatro vezes diferentes pelo vírus.
Quando um
sorotipo circula por muito tempo, a população desenvolve
imunidade coletiva, o que faz com que a transmissão diminua ou
"suma" temporariamente até que um novo sorotipo seja
introduzido.
“As
epidemias de dengue sempre foram modeladas por introdução e reintrodução de
sorotipos”, explica Tanta. Em 1994, houve ainda a confirmação dos primeiros
casos e óbitos por "dengue hemorrágica" — termo que caiu em desuso
para identificar casos graves com extravasamento de líquidos dos vasos
sanguíneos.
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Em 2001,
o Ceará passou pela terceira epidemia, influenciada pela introdução do sorotipo
DENV3. Foram 34.100 casos naquele ano. As seguintes ocorreram em 2008, 2011
(quando houve a introdução do DENV4), 2012 e 2015.
O maior
número de casos em um ano, conforme dados do Sistema de Informação de Agravos
de Notificação (Sinan) colhidos pelo Diário do Nordeste, foi
em 2011: 63.437. Já o ano com maior número de óbitos foi 2013,
quando 71 pessoas morreram por dengue.
Dengue e SUS:
histórias que se misturam
“A dengue
esboça a crise sanitária que o país atravessava”, relembra o sanitarista José
Policarpo de Araújo Barbosa, que acompanhou de perto a reintrodução da doença
no Ceará durante sua prática como médico e pesquisador nos anos 1980.
Naquela
década, o país lidava com diversas doenças transmissíveis:
malária, febre amarela, doença de Chagas, esquistossomose, peste bubônica,
leishmaniose, entre outras. No fim dos anos 1980, os primeiros casos de HIV
também começaram a surgir.
O
órgão responsável pelo combate à dengue, à época, era a Superintendência de
Campanhas de Saúde Pública (Sucam), extinta em 1991.
A crise,
no entanto, não era apenas causada pelas doenças. José Policarpo relata que o
país passava por um período de enfraquecimento econômico, de clamor público
pela redemocratização após 22 anos de Ditadura Militar e de desvalorização
da saúde pública.
Foi nesse
mesmo contexto que ocorreu a 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986.
O evento é tido como um dos marcos para a criação do Sistema Único de Saúde
(SUS).
“Houve
uma mobilização muito grande do movimento sanitário, das universidades, do
movimento estudantil, dos professores, dos médicos, dos profissionais de saúde
e dos trabalhadores de sindicatos”, conta Policarpo sobre o evento que durou
cinco dias.
O
relatório final da Conferência delineou os princípios fundamentais do que viria
a ser o SUS: universalidade, integralidade, equidade, descentralização e
participação social.
A partir
da criação do SUS, o combate à dengue mudou, deixando de depender apenas de
campanhas e ações centralizadas e passando a fazer parte de uma
política permanente de saúde pública, com responsabilidades
compartilhadas entre União, Estados e Municípios.
O que aprendemos
após 40 anos
Depois de
40 anos, mesmo com mais conhecimento, pesquisa e experiência prática no combate
à dengue, conviver com o mosquito e com a doença ainda
é um desafio para o Brasil.
O Aedes
aegypti, adaptado ao clima e aos ambientes urbanizados, passou a
transmitir outras duas arboviroses: a chikungunya e a
zika.
Em 2015,
os primeiros casos de chikungunya nativos do Ceará foram identificados pela
Sesa. A transmissão do vírus ocorreu de forma sustentada a partir de 2016 e
gerou uma grande
epidemia em 2017, com 105.323 casos e 194 mortes em um só ano.
Já a
zika, confirmada em pacientes no Ceará também em 2015, teve uma menor dispersão
e menor quantidade de casos. No entanto, foi descoberta a relação entre a
infecção de gestantes com o vírus e o desenvolvimento de microcefalia nos
fetos.
O Estado
confirmou 177
casos de Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCZ) de 2015 a 2018, último ano
com registros de pacientes com a malformação congênita associada ao
vírus.
A relação
das arboviroses com o clima também ficou mais evidente. Em um mundo
cada vez mais quente, o mosquito encontrou mais locais
propícios para infestação. No Ceará, áreas que registravam
temperaturas mais amenas e menos focos do vetor, como a Serra da Ibiapaba,
também passaram a ter de lidar com as doenças.
Estados
que não tinham histórico de epidemias de dengue, mais ao Sul do país,
registraram explosões de casos nos últimos anos. O Rio Grande do Sul, por
exemplo, notificou 225 óbitos por dengue em apenas seis
meses de 2024.
“Talvez o
maior exemplo do mundo de mudança climática no que diz respeito a doenças
transmissíveis foi a epidemia de dengue de 2024. Você teve a epidemia de dengue
até em Buenos Aires (Argentina). Buenos Aires não sabia nem o que era um
mosquito. Isso é aquecimento global, é adaptação do vetor”, lembra
Tanta.
O caráter
intersetorial do combate ao mosquito também se tornou
incontestável. Abastecimento de água, saneamento básico, educação, urbanização
e manejo adequado de resíduos sólidos se tornaram partes inerentes dos esforços
para diminuir os focos.
Na
próxima reportagem da série, você entende por onde a dengue começou no Ceará e
como se espalhou para todas as regiões do Estado.
(Diário do Nordeste)
(Foto: José Leomar)
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